Poema #6 | Poema em Linha Reta

em 10.3.14
Olá, leitores!
Que tal um poema para começar a semana? :)

Desta vez, selecionei um poema que muitos conhecem e está entre os meus favoritos de Fernando Pessoa, intitulado Poema em Linha Reta.

Esse poema resgata a imperfeição que todos somos e o quão humanos ela nos torna (♥). Convido a ouvi-lo na voz de Paulo Autran – é uma pena, no entanto, que os últimos versos não estejam presentes no vídeo.


Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar],
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 
(Fernando Pessoa)
.
Não sei como é para vocês, mas este poema desperta em mim uma aceitação tão grande dos meus próprios erros. Quanto custo pessoal envolve mascarar as imperfeições? Quanta hipocrisia provocam nos relacionamentos? Eis um grande desafio: ser verdadeiro e permitir ao outro ver nossas misérias, nossos defeitos.

Gostou?
Comente o que achou deste poema! Já o conhecia ou foi seu primeiro contato com ele?
Desejo uma ótima semana a todos!

10 comentários:

  1. Eu adoro esse escritor ....
    já conhecia o poema e foi bem bom relembrar :)

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  2. A que lindo Fernando Pessoa e seus poemas , sempre me fazendo pensar na vida em como eu ando me comportando etc.
    Adorei flor, não poderia ter começado o dia melhor :)
    Beijinhos


    Obs: a Carol já colocou o banner da book tour no blog dela, eu irei colocar em breve ok? depois dê uma olhadinha no Pag 394

    Beijinhos da Lêeh
    http://maetoescrevendo.blogspot.com.br/2014/03/leituras-de-fevereiro.html

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  3. Fraaan, mais uma vez arrasando no post! Olha, não tenho muito contato com poemas, mas aprecio muito essa arte. Nunca tinha lido esse, mas a sensação que tive foi a mesma que você descreveu: saber aceitar os próprios erros. Adorei, vou levar como lição de vida!

    Beijos
    www.procurei-em-sonhos.com

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  4. Olá Francine! Mandou bem postar o Pessoa (em uma de suas pessoas). Gostei do blog! Volto mais. Abraços

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  5. muito bom beijos
    livro-azul.blogspot.com.br
    (por favor me siga lá no meu blog , :))

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  6. Olá Fran!
    Não sou muito de poemas... Mas o Pessoa é maravilhoso!
    Adorei o poema, esse eu não conhecia dele!
    Beijos,
    Ana M.
    http://addictiononbooks.blogspot.com.br/

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  7. Oi, Fran.

    Não me lembro de já ter lido algo dele, até porque antes isso era só bobagens para mim, pois não entedia nada rs, mas agora eu entendo e gosto.

    Gostei muito deste e quem nunca errou e erra sempre né?.

    Beijos
    http://fernandabizerra.blogspot.com.br/

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  8. Olá Francine,

    Apesar de não ler muito poemas, gosto bastante e esse é demais...parabéns pelo post....abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Esse assunto é muito delicado. Eu fico imaginando: nem sempre as pessoas usam máscaras, nem sempre as pessoas são hipócritas, as vezes, elas apenas não se mostram por defesa, ficam quietas em seu canto, pois a exposição pode ser usada contra elas. E não sei se irá concordar comigo, que em ambientes de trabalho, principalmente, tudo é usado contra você ou a seu favor, ninguém sabe.
    E também existe a hipótese de que, talvez, o personagem esteja se sentindo sozinho no erro e necessita desesperadamente que o outro ao seu lado erre também, para ele não se sentir mal com seu próprio erro.
    Enfim, a natureza humana é complexa, não existe unanimidade, nem todos são iguais, eu acredito que não existem premissas verdadeiras.
    Percebeu que adoro filosofar, se me deixar vou longe.
    É que aprendi uma coisa na vida: nem tudo é o que parece ser. Então, precisamos tomar cuidado, pois as vezes alguém se aproxima com um discurso que realmente parece ser verdadeiro, mas no fundo não é.
    beijinhos.
    cila-leitora voraz
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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