[Resenha 154] O Mythos: o fim do mundo é logo ali

em 16.12.16
Título: O Mythos – O fim do mundo é logo ali
Autor: M. R. Terci
Publicação independente: Amazon | 2016 | 285 páginas
Sinopse: "Os gringos tiraram as divindades do próprio quintal e trouxeram seus ídolos, seus mártires crucificados, seus santos imolados, seus caras orelhudos e seus lances de macumba para dentro dos santuários e dos locais de adoração e poder dos Antigos Deuses Brasileiros. Essa terra já foi Deles e, pelo visto, voltou a ser."

Tudo começou com sangue e, assim, deve terminar.
O detetive P. Pastore, vulgo Pastor, é um profissional de reputação duvidosa, conhecido por trabalhar para gente da pior espécie na Cidade Baixa. Quem o conhece de perto, sabe que o melhor a fazer é se afastar, sair do caminho desse toxicomaníaco sem esperanças a meio caminho do suicídio. Dizem, que o sujeito vê, ouve e sente coisas que só coabitam os limites de sua delirante percepção.
Quando uma misteriosa funcionária da embaixada russa contrata Pastore para encontrar sua protegida, a filha do embaixador, tudo muda. Para pior. Seguindo suas pistas, numa infindável trama mitológica, o detetive enlouquece de vez e executa a garota na Baía das Águas Claras.
Preso em flagrante, Pastore é conduzido ao Distrito Amarelo.
Agora ele tem apenas uma noite para convencer os investigadores de que o melhor que todos têm a fazer é encomendar a alma a Deus e jogar roleta russa na sala de interrogatórios.

Uma visão contemporânea e insanamente desapiedada sobre a mitologia desenvolvida por Monteiro Lobato. Uma história negra, com um crescendo de loucura e perversidade que conduzem o leitor ao clímax diabolicamente inusitado.
Bem-vindos a esta viagem alucinante às raízes folclore brasileiro, numa dramática infusão da beberagem do horror cósmico com 100% malte de divindades brasileiras.
O Mythos é recomendado para os doentes da razão e os degenerados do espírito. LEIA SEM MODERAÇÃO. Persistindo os sintomas, um xamã devera ser consultado.

Resenha
[literatura +18 por conter violência explícita]

Há enredos inovadores, ousados e envolventes. Mas nunca conheci nenhum que sequer se aproximasse desse. O Mythos – O fim do mundo é logo ali está além de qualquer imaginação, com exceção da criatividade singular de seu autor.

Nosso protagonista não é jovem. Sua experiência já se revela em um corpo físico cansado, mas duro na queda. Pastore é seu sobrenome, vulgarmente chamado de Pastor. Logo no início percebemos que o povo o odeia, a polícia também. Ele acaba de ser detido e prestará depoimento. Está sendo acusado de ser o sanguinário Homem de Palha, assassino que gosta de estripar suas vítimas.

Pastore não é santo, logo notamos.
Mas ele também não costuma levar crédito pelo que não fez.

Ele não é o Homem de Palha. O problema é que sua ficha está longe de ser limpa. E, claro, ele é um poço de informação para a polícia. Pastore é um ex-militar que atua, agora, como detetive. Mas nem tudo o que diz faz sentido.

Calma, eu explico: Pastore carrega um dom (ou talvez uma maldição). Ele vê fantasmas. Os espíritos descarnados não são belos, tampouco permanecem eloquentes quando presos no mundo dos vivos. Logo, Pastore leva uma vida de grande dificuldade.

Com esse dom, resolve casos complexos. Igualmente, no entanto, acaba por se envolver em situações bizarras. E isso nos leva ao enredo de O Mythos.

O crime...
Em Taubaté, mais de quarenta crianças desapareceram numa excursão ao museu Monteiro Lobato.

O sequestro...
A jovem filha de um importante embaixador foi sequestrada.

O mistério...
Aparições estranhas e mortes violentas estão ocorrendo.

O mal...
Eles, eles estão vindo. 
Eles vêm para assumir o lugar que lhes pertence.
Eles estão irritados e muito famintos por almas e devotos.
Eles sentem ódio porque nós (você, eu, todos) ousamos esquecê-los.
Eles são os Deuses Brasileiros. 

Essa terra que agora pisamos era Deles muito antes de o cristianismo ou qualquer outra religião influenciar nossa cultura. Nosso povo ancestral os idolatrava e respeitava antes de ser subjugado e catequizado. E, assim, os Deuses Brasileiros silenciaram, adormeceram, mantiveram-se à espera.

Agora, O Mythos voltou. Não, ele nunca foi embora. Através da literatura, manteve-se vivo no imaginário do povo. Tornou-se uma "lenda", um "conto infantil". Nós reduzimos sua importância às imagens míticas do Saci, Boitatá, Cuca, Iara... Nós rimos Deles, brincamos com suas aparências e criamos cantigas com seus nomes.

"Nana, neném, que a Cuca vem pegar..."
Nunca mais cantarei isso na vida. 😱

M. R. Terci ousou trazer elementos de Monteiro Lobato numa releitura provocativa, capaz de nos fazer questionar aspectos antropológicos da nossa cultura. Seu personagem, Pastore, é um dos melhores protagonistas que já conheci. Seu dom de ver fantasmas o destaca, claro, mas até mesmo os conceitos de morte e pós-morte  retratados pelo autor foram completamente diferentes do senso comum. Isso o faz narrar os acontecimentos com humor negro, uma dose de realismo irônico e um toque de solidão.

O contexto e seu desenvolvimento são alucinantes. A narrativa é em primeira pessoa, intercalando-se entre presente e passado. Vamos entendendo aos poucos o que levou Pastore àquela delegacia, àquele depoimento, àquela situação na qual é odiado pelos policiais e pela comunidade. Por que Pastore se tornou o principal suspeito de crimes tão hediondos?

A descoberta impacta, porque (CARAMBA) não é possível prever nada.
Não posso deixar de comentar que existe, além de toda a criatividade singular, uma característica que me cativou em O Mythos: o empoderamento feminino. Há duas mulheres fortes que enfrentam as circunstâncias junto com Pastore, e há duas mulheres fortes que atuam como vilãs. Gostei demais disso! Outro ponto alto é o zelo em apresentar nossas tradições religiosas de raiz: a umbanda e o candomblé. 

⇒ O enredo intrincado e complexo não é por acaso. O Mythos surgiu, originalmente, como um roteiro escrito especialmente para ser desenvolvido em uma minissérie! Sob os cuidados do diretor Janderson Geison, os episódios serão produzidos pela Estrada films. No próximo ano, teremos novidades!

De tudo o que já li, O Mythos ingressou para os meus favoritos com louvor e mérito que, com certeza, não serão dedicados a outra obra tão cedo. Traz um enredo primoroso, que valoriza a nossa cultura literária e religiosa. Monteiro Lobato nos é apresentado sob um ponto de vista completamente inesperado. Vale a pena conferir!

Leitura mais que recomendada! Mesmo para quem não gosta do gênero horror, essa é uma dica literária que deveria ser considerada.

Avaliação:

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Skoob | Disponível apenas em e-book: Amazon 


Sobre o autor:
M. R. Terci é escritor, roteirista e poeta. Antes de se dedicar exclusivamente a escrita, foi advogado com especialização em Direito do Trabalho e Direito Internacional. Começou a carreira de escritor em 2004, escreveu centenas de contos e recebeu vários prêmios por suas participações em antologias e concursos de poesia.
Sua escrita tem como característica a pesquisa histórica, primando sempre pela composição poética de cada parágrafo penejado. Com base em fatos históricos, o escritor substitui os castelos medievais pelos casarões coloniais, as aldeias de camponeses pelas cidadezinhas do interior, os condes pelos coronéis e as superstições por elementos de nosso folclore e crendices populares, verdadeira transposição do gótico para a realidade brasileira.
É o criador da série O Bairro da Cripta, composta por contos de terror que colocam os clássicos do terror universal sob o lume dos lampiões de querosene dos sertões paulistanos do século XIX. Escreveu a Trilogia Caídos, cujo livro 1 foi lançado pela Editora Multifoco, através do Selo Desfecho. Desenvolveu a série de horror histórico os Imperiais de Gran Abuelo – As Crônicas de Pólvora e Sangue e As Crônicas dos Negros Céus. A série que mescla história do Brasil, fantasia e horror apresenta os soldados imperiais treinados pelo General Osório no reinado de Dom Pedro II, às voltas com monstros sobrenaturais libertados pelo caudilho Solano López no desfecho da Guerra do Paraguai.
Finalizou o roteiro de O Mythos, minissérie televisiva de horror em doze insanos episódios envolvendo o folclore brasileiro, Monteiro Lobato e muito sangue. A obra, com produção de Estrada Films e direção de Janderson Geison, em breve, vai ao ar no Brasil e no Canadá.

Conheça outras obras do autor:
    
 


E aí, o que acharam dessa resenha?
Sério, gente... Se vocês ainda não conhecem M. R. Terci, por favor, programem-se para fazê-lo!

24 comentários:

  1. Sensacional leitura, e ótima resenha. Me fez desejar ler uma outra vez...rs.

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  2. Hey Fran!! Que saudade estava daqui!
    Eu estava muito ansiosa por sua resenha, e adorei saber que você também gostou. Compartilho da mesma opinião, acho que nos últimos tempos, não li nada tão inovador e fascinante. Lendo sua opinião, impossível não sentir vontade em reler a obra.
    Beeijos ♥

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  3. Oiee Fran ^^
    Eu não gosto muito de livros "desse tipo", mas fiquei mega curiosa para conhecer o livro, pois fiquei curiosa com o dom do protagonista (de ver os fantasmas), e também por conter bastante da cultura brasileira no meio, coisa que não se vê todos os dias, né?
    MilkMilks ♥
    Milkshake de Palavras

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  4. Olá Fran! :3
    Mais um livro maravilhoso do MR Terci com certeza. Ainda quero muito ter oportunidade de ler algo dele, mesmo que seja mais focada em suspense e terror algumas vezes e eu fique cheia de medo. haha
    Beijos!

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  5. O quê? Quero ler esse ontem!
    Amo terror ou qualquer coisa que chegue perto. Ele vê fantasma e é uma leitura imprevisível, tô dentro e te marco assim que ler.
    Bjs

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  6. Oieee
    Me arrepiei aqui lendo, fiquei imaginando a vida do personagem, vivendo com esses espíritos.
    Adorei a resenha, está de parabéns.
    Beijos

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  7. Oi Fran, tudo bem?
    Esse é um livro que pela capa eu descartaria, mas ao ler sua resenha, eu só tenho a dizer é que surpreso é pouco para o meu estado. O livro parece ser muuito bom mesmo e já estou louco para ele. Acaba de entrar para os meus desejados!

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  8. Oi!
    Não sou muito fã de livros assim, mas sua resenha me deixou bem curiosa para conhecer mais sobre a história.
    Talvez mais para frente eu lei.
    Bjs

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Uau! AMEI!
    Esse livro, ao que me parece, é incomparável! Envolve a nossa cultura brasileira e a nossa história a tanto não tão explorada! Simplesmente amei, o horror, o mistério, os fantasmas e a mitologia.
    Dica super anotada! Obrigada.
    Beijos :*

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  11. Eu eu agora não sei se aclamo a sua leitura ou se fico fico com o pe atras kkkkkk amei o lance do mistério mas não sei se estou preparada para ver uma leitura meio sanguinária de Monteiro Lobato não. Logo com nossos contos brasileiros? Porém a ideia é interessante. Dá para entender minha confusão?

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  12. Olá! Tudo bem por aí?

    Olha, eu AMO livros desse gênero e sua resenha me fez querer MUITO ler esse livro. Eu não conhecia o autor, mas como você indicou, vou me programar para ler esse livro. Sério, o enredo chamou muito a minha atenção e sua resenha tão bem escrita e detalhada me fez querer lê-lo mais ainda.

    Abraços!
    www.acampamentodaleitura.com

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  13. Helloo, tudo numa nice?!
    Eu nunca vi esse livor, mas conheço o autor por algumas postagens que você já fez aqui. Eu sou maior de idade, mas meu estômago é fraco e não aguento ver tanta violência assim ahaha. No decorrer da leitura da resenha, percebi, como você, mesmo sem ter lido o livro, a originalidade do autor.
    O enredo me chamou a atenção, mas sei que não leria pelo que comentei aqui já, sobre ser fraca para violência.
    Ótima resenha.
    Beijin...

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  14. Caraca, que livro é esse meu... Super amei, ele conseguiu me instigar ao máximo para iniciar sua leitura. Sua resenha conseguiu trazer toda a essência necessária do livro. Não conhecia o autor e não sabia que ele conseguiria ser tão duro com as violências trazidas em algumas partes do livro, isso não importa, vou ler esse livor o quanto antes.

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  15. Oi!
    Ainda não conhecia esse livro, mas achei a premissa dele extremamente interessante. Adorei esse 'dom' do Pastore e fiquei curiosa para saber como tudo acontece. Todas as obras do gênero me impactam, mas acho que essa impactará ao extremo.
    Achei muito legal a forma como você escreveu sua resenha e fiquei mega curiosa para ler o livro.
    beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  16. Olá!
    Não é meu estilo de leitura, mas achei a premissa instigante e a história muito rica logo de cara. É sempre bom ver autores independentes com histórias incríveis assim para oferecer. Não leria por não me identificar com a leitura, como eu disse, mas vou repassar a dica com certeza.
    Beijos,

    Luana

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  17. Olá, adorei sua resenha, as fotografias então, deu um ar todo macabro para ela
    o livro parece ser realmente intrigante e uma leitura maravilhosa, nunca tinha lido nada no genero de um autor nacional ainda mais com elementos das nossas lendas brasileiras,

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  18. Não gosto de horror, e não leio de forma alguma livros com violência explícita, então, por mais que a premissa pareça extremamente interessante, com certeza passo a dica. Mas achei mesmo muito legal a questão de retratar a cultura religiosa e literária, e espero que dê tudo certo com o projeto da minissérie! Tenho certeza que é uma ótima dica para quem tem estômago para realizar a leitura, mas violência não me desce mesmo.

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  19. Tenho que dizer que não sou de ler esse gênero, mas você me conquistou pela resenha. Despertou mesma a minha curiosidade, de tal forma que agora preciso ler. Se não fosse por ela, temo dizer que eu não leria. Nem pelo gênero, nem pela capa, que não me chamou a atenção.
    Só espero ter estômago para tal.
    Bjs, Mila

    http://a-viagem-literaria.blogspot.com.br/

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  20. Olá!

    Confesso que não conhecia o autor e nem mesmo seu livro, mas essa sinopse me interessou, mesmo se tratando de algo mais voltado para o terror. Isso me deixa um pouco apreensiva em relação as tramas, sou uma cagona por natureza, mas sua resenha ficou tão que sinto vontade de ler esse livro, então vou anotar a dica. Obrigada!

    Ingrid Cristina
    Plataforma 9 3/4

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  21. Oi, tudo bem?
    Eu não conhecia o livro ainda e devo dizer que sua resenha me deixou mega animada, eu amo o gênero e estou doida para poder conferir a obra uma hora dessas; Ótima resenha!

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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  22. Fran, que enredo interessante e instigante. Adorei as suas considerações sobre o livro e fiquei curiosa quanto a adaptação que a obra ganhará.
    Quero ler!!!
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  23. Oi Fran, sua linda, tudo bem?
    Eu conheci o autor no blog da Bianca e fiquei estarrecida com a resenha dela. Nunca vi nada parecido como as histórias dele. Acho que minissérie é muito pouco, se eu fosse uma grande editora estaria disputando o autor. Ele merece ser conhecido por mais pessoas. Eu estou simplesmente louca para ler!! Adorei sua resenha!!!

    te indiquei para um prêmio:
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/2017/01/o-cantinho-foi-indicado-premio-dardos.html

    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  24. Nossa, gostei da sua resenha.Amo histórias que nos aproximem da realidade ou dão esse ar pelo menos :)
    Gostei muito.

    beeijão
    http://www.carolhermanas.com.br/

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